
O som atravessava a janela aberta e enchia a sala, era suave e harmônico, um belo samba canção. Não era a primeira vez que eu o ouvia, à vários dias essas musicas, vindas de algum apartamento vizinho, me aqueciam nas tardes frias, tão baixinhas que pareciam tocadas pelo vento, a trilha sonora da cidade era sempre um samba canção. Busquei meu maço de cigarros na mesa e caminhei até a varanda na tentativa de descobrir de qual janela vinha essa música que me despertava tamanha atração porém fui surpreendido por uma voz doce, ingênua e afinada que entoava junto à canção.
Podia ver o disco rodando na vitrola e, junto dele, rodava uma moça de vestido solto e colorido, suas longas pernas de louça dançando lentamente enquanto seus cabelos negros balançavam suavemente, tocando sua pele morena na altura dos ombros desnudos, os olhos verdes, penetrantes e sinceros me fitando na poltrona, ao passo que sua boca vermelha me desafiava com sua voz atraente misturando timidez e curiosidade:
- Garanto que não sabes sambar...